Só Agora Eu Sei
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Só Agora Eu Sei Capítulo 31

30 | PESADELO

Publicado em 03/07/2022

AEBAAA, MIL PERDÕES PELO ATRASO!!! MAS ENFIM CHEGOU!

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Cena 1

Após torrar todos os seus neurônios em busca de alguma paz mental, Hanna enfim chega em casa, um pouco antes das sete e meia. Ela dá um breve cumprimento à sua mãe, que a olha com confusão ao ver a pressa e ansiedade de sua filha, mas nem teve tempo de opinar ou perguntar algo, pois a ruiva correu pelas escadas e trancou-se no banheiro, tomando um banho rápido e refrescante para tirar o odor de fritura impregnado em seu corpo.

Vestira, após o banho, o mesmo vestido que colocara na casa de Alyce. Acabou que, depois de sair desesperada da casa da amiga aos prantos em preocupação com Peter, Hanna acabou por levar o vestido, e mesmo após ter falado à loira que o devolveria após lavá-lo, ela recusou a oferta, alegando que o vestido ficava bem melhor em Hanna do que nela.

Pegou uma bolsinha branca simples de alça e dispôs sua carteira e seu celular dentro. Desceu as escadas ainda com pressa, olhando no visor do celular e percebendo que estava dez minutos atrasada, pois já era quase oito horas. Desesperou-se um pouco.

Foi em direção à cozinha pegar um copo de água, vendo se assim se acalmava, enquanto via onde ficava o endereço que Peter enviou-lhe, e agradeceu aos céus por ficar apenas quinze minutos andando de sua casa até o local, e por ser um restaurante não muito chique. Agradeceu por isso, também.

— Para onde vai, Hanna?

A ruiva congelou ao ver Agatha parada a poucos metros em frente ao fogão enquanto cozinhava algo. Esquecera totalmente de avisá-la que sairia. Estava tão eufórica sobre o possível encontro com Peter, que tudo ao seu redor parou.

— Ah, eu esqueci de avisar, desculpa, de verdade. Eu vou... sair? É, eu vou sair com o Peter.

A mais velha observou-a com astúcia, como se soubesse exatamente o que sua filha estava pensando e passando por aquele momento. Enfim, sorriu.

— Eu gostei do garoto, e parece que você também...

Hanna avermelhou-se brevemente e Agatha riu alto com a cena. Eram raras as vezes que a mãe via um mínimo deslumbre de qualquer sentimento que não fosse neutralidade e, mais recente, raiva, na filha. Gostava de ver que sua doce e amada Hanna estava voltando a ter cores novamente, e sabia que teria que agradecer a um certo alguém por tal feito.

— Eu...

Agatha não a deixou continuar:

— Apenas vá. Sei que está feliz.

Hanna sorriu timidamente.

— Mas saiba que depois terá de me contar tudo o que aconteceu entre os dois! Sabe que não resisto a um clichê...

Hanna revirou os olhos, mas um sorriso brilhante permanecia em seus lábios.

— Até parece — A ruiva foi em direção a porta. — Tchau, mãe, te amo.

Hanna andava apressadamente pelas ruas de Londres, vendo no mapa de seu celular por onde teria que ir. Aproximadamente depois vinte minutos, chegou a um restaurante local simples, mas com uma decoração muito agradável. Ficava em frente a um pequeno parque, onde pessoas passeavam com seus cachorros e andavam com seus familiares.

Olhou em seu celular e vira que estava apenas sete minutos atrasada, e respirou aliviada. Se Peter visse que ela se atrasara, tiraria sarro dela até a sua morte, e diria o quão hipócrita ela era. Então, sua ficha caiu: Peter veria Hanna, afinal, não era por isso que ela estava lá?

A ruiva voltou a se desesperar, mas respirou fundo e entrou no estabelecimento. As luzes já estavam ligadas, já que já havia anoitecido há algum tempo. O clima do ambiente era agradável e simples. Hanna não se sentia intimidada como nas poucas vezes que jantara com o pai, naqueles restaurantes luxuosos e chiques, onde, no fim, sentia-se como um indefeso rato tosco na toca de leões ricos e exuberantes. Parece que Peter percebera isso, e Hanna sorriu ao notar.

Hanna rodou com os olhos todo o estabelecimento e percebeu que Peter ainda não chegara, então suspirou aliviada. Não seria ela, desta vez, que sofreria os insultos. Sentou-se em uma mesa do lado de fora do restaurante, no deck da frente, onde era iluminado por lâmpadas seguradas por fios.

Pegou o cardápio e começou a analisá-lo. As coisas não eram muito caras, o que agradou a Hanna. Logo depois, um garçom veio ao seu encontro, e ela pediu uma Coca diet, só para tomar a mesa para si e não parecer que ficaria ali sem pedir nada.

Olhava para a rua freneticamente à espera de Peter e sua tensão aumentava. Sua ficha de que teria um encontro com ele nesta noite ainda não caíra.

O garçom trouxe sua Coca e Hanna agradeceu. Ela tomou um gole e então esperou por Peter.

E ela esperou.

Esperou.

Esperou.

E esperou.

Quando vira, já se passava das nove.

E Peter não havia chegado.

Ele nunca chegou.

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  • ***

Cena 2

Um dia, Hanna vira uma matéria onde dizia os estágios do luto. Não sabia por que lera aquilo, mas, quando percebera que Peter não havia chegado, ela lembrou-se como se tivesse lido no dia anterior.

O primeiro estágio era a negação, quando quer acreditar que era impossível aquilo ter acontecido;

O segundo era a raiva, que era o momento em que você perguntava aos céus o porquê;

O terceiro era a barganha, quando você acredita que ainda tem um jeito de mudar tudo;

O quarto era a depressão;

E, por fim, vinha a aceitação.

O motivo pelo qual talvez Hanna tenha decorado os cinco estágios do luto que lera numa matéria qualquer na internet podia ser pelo fato de já ter passado por ele, quando seu irmão morrera. Talvez tivesse sido isso.

Naquele momento, porém, o que ela sentia pelo fato de Peter não comparecer ao encontro que ele mesmo programou era um pouco diferente.

Primeiro veio a confusão, depois a preocupação, depois a raiva, depois a tristeza, e depois a raiva novamente, e a preocupação se repetiu.

Já se passavam das dez quando Hanna pagou por sua Coca e se dirigiu a sua casa apressadamente. Ela pisava forte pelas calçadas de Londres enquanto soltava inúmeros palavrões, diversos e criativos. Naquele momento, ela tinha raiva.

Quando chegara em casa, jogara sua bolsa em cima do sofá onde sua mãe assistia tv e correu para o quarto sem olhar para trás ou ouvir os chamados de sua mãe. Agora, ela sentia tristeza.

Trancou-se em seu quarto e começou a andar de um lado para o outro com as duas mãos sobre a cabeça. Tirou seu tênis com os próprios pés, ainda de pé. Começou a bater freneticamente a perna no chão e a mão na coxa, seu hábito nervoso. Enfim, ela estava preocupada.

Mas então a raiva voltou. E a tristeza e insegurança vieram junto.

— Por que ele mudou de ideia de última hora... Eu fiz algo?

Hanna começou a revirar o que fizera na última hora e a revisar em sua mente todas as mensagens que enviara a Peter sobre seu atrasado. Bom, ela enviara xingamentos pelo fato do garoto não estar respondendo suas mensagens, e isso não era nada fora do padrão.

— Aquele mimadinho irritante! Ele...! Agrh! — Hanna jogou-se em sua cama com os punhos cerrados.

Um turbilhão de sentimentos e pensamento diferente passavam por sua mente, cada hora, um dominando-a. Hanna não sabia no que pensar e focar, estava perdida.

Depois de muito esforço de tentar limpar sua mente, Hanna enfim desiste e decide dormir.

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  • [SONHO]

Cena 3

Ela olhava de um lado para o outro, ainda um pouco perdida e confusa. O corredor era todo branco e possuía breves assentos azuis marinhos encostados na parede. O corredor possuía algumas janelas com vidro que davam visão para dentro de salas menores, mas as cortinas brancas tiravam quase todas as visões dos cômodos.

Atrás dela, Hanna escutou vozes preocupadas, mas firmes, se aproximando. Quando se virou, viu meia dúzias de pessoas carregando, às pressas, uma maca. Duas das pessoas ela reconheceu como os pais de Peter: Charles e Aurora. Ambos corriam em pé de igualdade com as outras quatro pessoas de jaleco branco. Os dois pareciam desesperados e tensos.

Hanna não entendera nada de início. Por que estava em um hospital? Por que os pais de Peter estavam lá? E por que eles estavam tão aterrorizados?

Então Hanna percebeu.

Antes mesmo de dar um comando, seus pés correram em direção à maca, e quando chegou lá, não pode acreditar no que viu.

Ela encaixou-se entre os médicos e correu com eles enquanto via a figura deitada na maca.

Lá estava ele, o garoto que furou o encontro que tinha com Hanna. O garoto que a irritava diariamente, mas que, mesmo assim, conseguia, de um jeito ou de outro, tirar boas risadas e entender a ruiva mais do que ninguém. A pessoa que chorara em seu colo como um bebê nascido ao citar a mãe que morrera, ato mais humano que Hanna já presenciara na vida. Lá estava ele.

Peter.

Hanna não conseguia acreditar no que via. Sua respiração travou e ela arqueou em busca do ar que não vinha.

— O... O que aconteceu? — Com um fio de voz, ela conseguiu perguntar, mas ninguém a respondeu. As vozes altas dos médicos e as perguntas desesperadas de Charles e Aurora sobrepunham o baixo soar de Hanna.

Suas mãos tremiam incansavelmente. Ela dispôs ambas as palmas de suas mãos sobre o peito do garoto, e respirou aliviada quando viu que o mesmo ainda tinha seu coração batendo, por mais que fosse fraco.

Hanna subiu seus olhos para o rosto fraco e pálido de Peter. Em sua boca e nariz uma máscara de oxigênio descansava.

A visão de Hanna tremeluziu pelas lágrimas que começaram a se formar. Fazia anos desde que havia chorado pela última vez, desde a morte de seu irmão, e nem sabia que ainda era capaz, mas lágrimas e mais lágrimas começaram a sair de seu rosto incrédulo com a visão a sua frente.

Foi acordada de seu breve espanto pela voz grave de um dos médicos.

— Para a sala de cirurgia!

Um abismo surgiu entre seus pés.

— Cirurgia? Como assim? — Hanna perguntou, mas novamente fora ignorada, como se sua presença não fosse perceptível.

— Meu filho! Meu filho vai ficar bem?! — O senhor Elliot perguntava desesperado. Havia lágrimas em seus olhos, assim como nos de Aurora.

Os médicos não responderam, ocupados demais com o corpo imóvel e fraco de Peter.

Ao darem algumas curvas, se aproximaram de uma porta dupla grande azul, um dos médicos, o mais velho do grupo, virou-se para os dois adultos com feições fechadas e cansadas, e disse apenas:

— Faremos todo o possível dentro do nosso alcance.

E então entrou.

Hanna virou-se para entrar também, ainda em choque, mas não conseguiu. A porta simplesmente não abria e ninguém parecia perceber isso. Ninguém a percebia.

Hanna virou-se assustada para os pais de Peter, mas percebeu que nenhum dos dois estava mais ali e que, atrás de si, apenas havia um vasto limbo. Quando se virou novamente, para onde devia ser, teoricamente, a porta dupla, também não havia mais nada. Tudo ao seu redor era uma névoa cinza espessa e não se podia ver nada. Tentou andar, mas também não conseguiu. Algo preso às suas costas a impedia.

Hanna gritava, gritava e gritava.

— Peter! — Ela o chamava, mas ninguém a escutava.

Então o limbo se intensificou e, com as suas pernas bambas, ela desabou no chão.

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  • [FIM DO SONHO]

Cena 4

Suor.

Hanna estava suada e com a respiração acelerada. Parecia que havia corrido uma maratona.

Seu rosto estava molhado, mas não sabia se era de seu próprio suor ou alguma lágrima que caíra durante seu pesadelo.

Pesadelo.

Hanna suspirou aliviada como nunca antes.

Fora apenas um pesadelo.

Devagar, com o corpo levemente dolorido pela má posição na qual dormira, Hanna sentou-se na cama. O quarto estava muito quente, apesar de ser outono.

Quando enfim pode respirar aliviada e com satisfação, sua porta foi aberta de supetão por sua mãe.

— Hanna... — Ela arfou. Em sua mão, o celular de Hanna estava com o visor ligado, como se tivesse acabado de ter sido utilizado.

A expressão de Agatha era tensa. Ela tinha seus lábios franzidos e seus cabelos estava desgrenhado, como se tivesse acabado de acordar — o que era verdade. Seu semblante era de alguém que estava em um impasse interno.

Hanna soube naquele momento o porquê de sua mãe estar ali naquele estado, vendo que ainda era antes das seis pela falta da claridade solar.

Hanna sentiu, mas não quis acreditar. Seu coração partiu-se em milhares de pedaços, pois ela sabia exatamente o que tinha acontecido, mas não queria acreditar.

Então Agatha estendeu o celular para frente e abriu a boca, proferindo aquilo que Hanna se recusava a ouvir.

— Não... — Hanna sussurrou, mas sua mãe dissera mesmo assim:

— O Peter...

Hanna levantara-se rapidamente.

— Não... — Ela arquejou, com as lágrimas presa em sua garganta.

Sua mãe tomou coragem, mesmo diante da expressão devastadora e melancólica da filha.

— O Peter sofreu um acidente.

Atropelando-a como um caminhão em alta velocidade, uma palavra surgiu em sua mente: negação.

Então Hanna, com as pernas trêmulas, assim como no sonho, desabou no chão.

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